quinta-feira, 19 de julho de 2012

O novo capítulo de Esmeralda

Esmeralda não se importava. Podia o dia ter sido de chuva ou de sol, lá ficava ela nas noites frias ou abafadas da pauliceia, ouvindo suas novelas da Rádio São Paulo. Sabia seus enredos de cor, o nome de seus personagens, os atores. 'Uma sombra em minha vida', era uma de suas favoritas, entre outras tantas que já havia ouvido - intriga, ambição, revolta, destino e é claro, o amor, faziam o recheio desse prato tão apreciado por ela e outras milhares de jovens paulistanas sonhadoras.

''Esses enredos são tão rocambolescos'', dizia Joana, a prima impertinente de Esmeralda. 'Onde já se viu, tanto drama?'. Mas Esmeralda se fazia de surda, e o seu rádio de cabeceira era seu maior irradiador de sonhos. Em um contínuo exercício de criatividade, imaginava os ambientes narrados em cada transmissão: os casarões onde bailes elegantes aconteciam, via com cores nítidas os vestidos das moças que eram cortejadas por não menos elegantes moços em todo um ritual de conquistas, paixões e suspiros incontáveis...

''Será que um dia eu terei um capítulo de novela em minha vida? Com um baile, um jovem me conquistando, pedindo minha mão em namoro, depois em noivado e por fim em casamento? Eu imagino que sim'', questionava Esmeralda em pensamentos altos, tão altos que por vez chegavam até os ouvidos de seus amigos e familiares. De tanto pensar alto, Esmeralda ganhou o apelido carinhoso dos seus de 'Sonhadora'.

Um dia, o enredo imaginado pela Sonhadora foi realizado. Ela conheceu Gérson, um rapaz que era elegante, não a ponto de vestir fraque como nos capítulos das radionovelas da Rádio São Paulo, mas a fazia se sentir como uma daquelas mocinhas indefesas e meigas apresentadas em textos para lá de dramáticos. O enredo era mais simples, porém não menos empolgante. Sua história era conhecida apenas pelos familiares e pelo seu círculo de amizades. Certamente não seria mostrado em reportagens da Revista do Rádio, nem teria patrocinadores como pasta de dentes, sabonetes que deixavam a cútis sedosa, nem seria anunciado todos os dias às 20:00h na sua emissora favorita. Gérson era trabalhador e esforçado, trabalhando em uma multinacional e poupando parte do que ganhava desde adolescente para quando constituísse família. Respeitoso e gentil, gostava de tocar violão e fazer composições para Esmeralda. Tudo, claro, seguindo o repertório romântico: ele na calçada e ela na janela (a casa era de um andar só), mas não menos romântica, pelo menos para eles. 

No final, tudo acabou como o planejado pela jovem sonhadora. Noivou, casou e constituiu família. Como sabemos, a vida não é um capítulo completo de uma novela, apenas alguns trechos podem ser classificados como tal, mas mesmo assim, a mente sonhadora de Esmeralda nunca perdia o brilho. Alguns mais céticos diziam que o sonho acabaria logo, e em pouco tempo Esmeralda cairia de joelhos perante à realidade tão dura e cruel do cotidiano. Foi inútil. Em cada dia de sua vida de casada, Esmeralda-Sonhadora lapidava tudo ao seu redor para que nada perdesse o encanto em sua casa. Nas tarefas mais rotineiras, nas responsabilidades de esposa, no trato com os dois filhos Ester e Júlio ou no relacionamento com o marido, ela se esforçava, amenizando atritos, mediando situações de tristeza, dizendo palavras de ânimo para Gérson, quando esse não tinha condições de sorrir, devido a problemas do cotidiano. 

O esforço valeu a pena. Ninguém poderia imaginar que Esmeralda, assídua ouvinte das novelas da Rádio São Paulo conseguiria ser tão eficiente na condução de seu lar, algo improvável para quem a via sempre sonhando, viajando nas histórias de roteiros dramáticos e mega-românticos. Até mesmo a Joana, a prima que ficava irritada só de ouvir Esmeralda comentar os capítulos quando estava perto dela, disse certa vez ''Pois é, eu sempre imaginei que você era avoada em seus pensamentos, que não conseguiria se adaptar à vida em família...enquanto eu, sempre realista, não fui feliz nos meus dois casamentos...'' E ela se lembrava disso sempre que as coisas não andavam bem para ela, o que comovia Esmeralda, que sempre arrumava um jeitinho para afagar-lhe e dizer palavras de apoio para a prima.

Mas como é corriqueiro nas novelas, e na vida real também, sempre existe um  desfecho e o enredo de Esmeralda teve o seu. Um dia percebeu que seus filhos haviam tomado seus rumos, Ester se casou e Júlio continuava solteiro com seus projetos de estudo e trabalho, sempre viajando. Algumas pessoas queridas haviam partido, outras mudado, e até mesmo as novelas da Rádio São Paulo, que ela tanto gostava, não eram mais transmitidas. Havia um sentimento de desacordo dentro de si. Não que ela estivesse cansada da sua história,  pois para ela o renovo era coisa não tanto trabalhosa, mas ela percebeu que o cenário havia mudado. Comentou com Gérson que sentia necessidade de ficar junto aos netos que Ester havia lhe dado e que moravam no interior. Ele que já estava aposentado e também queria novos ares, refletiu e atendeu aos desejos de sua amada Esmeralda. 

Partiram para o interior, deixando para trás toda a 'história de Esmeralda e sua família'. Não era um desfecho real, a história continuou por muito tempo, tal qual as radionovelas que tanto faziam bem para aquela sonhadora e que sempre tinham os roteiros que se repetiam constantemente. Antes de ir, o casal foi dar uma volta no quarteirão onde se conheceram, na praça, viram a casa onde Gérson fazia serenatas para a namorada, hoje esposa e avó, que certamente terá muitas histórias para contar aos netos. As suas próprias histórias, com enredos incríveis, tais quais as histórias das radionovelas que Esmeralda, a Sonhadora, ouvia na Rádio São Paulo.

domingo, 3 de junho de 2012

Ostracismo de outono

O outono com seu raro sol, de longas noites e de cores curtas, de longos pensamentos com breves ansiedades, de abraços acolhedores que aquecem e solidões que vêm nem sempre bem-vindas. A esperança do prazo para a tristeza em um tempo que espera novos tempos em que tudo se fará novo, desde as já conhecidas cores, até os mais familiares sorrisos esquecidos agora. Desejo de novas colheitas que vêm com o velho desejo de compartilhar o que se tem, o que sobra, ou o pouco que é pertencido mesmo que seja para repartir ao próximo e sentir-se feliz. 

Tempo de reparar o cotidiano com mais introspecção, de pensar durante as noites frias o motivo dos descaminhos, das falhas, mas ainda das inseguranças, que apesar de muitas, fizeram o acerto, que trouxeram dias felizes e importantes, mesmo que por alguns instantes de eternidade. Momento de buscar consolo até mesmo na certeza de que a injustiça acometida, as maldades que quase causaram desistência, são partes do aprendizado. Tempo de tentar, mesmo na percepção do cinismo das almas que se diziam sinceras e que só trouxeram a frustração e o fardo de uma existência que tenta ser livre de fardos, a reescrita de uma história livre dessas memórias que matam aos poucos.

A tristeza junto com a frustração, a dor da injustiça e do desassossego e o desgosto podem estar camuflados na estação dos casulos, do sonho adormecido, do amanhecer guardado. Alvorecer que é agora guardado somente na retina da alma que vislumbra nada mais do que o cinza do dia que perdura por toda a noite, de frio ou de chuva do tempo de outono. A tristeza, a frustração, a dor da injustiça e do desassossego e o desgosto, aclimatados no tempo que parece congelado dentro de um quadro pintado com cores mortas de uma existência estática. Mas eles sairão mesmo antes do novo dia, da nova época, da nova estação. Não permanecerão no novo tempo que virá, porque não resistirão ao mais suave gesto real de humanidade, à mais simples palavra de amizade verdadeira, à mais sincera palavra de consolo, ao amor na mais singular forma na estação onde tudo se fará novo e perfeito. Serão estranhos e não participarão  na contemplação dos casulos amadurecidos, do sonho transformado e da luz que anuncia vida nova e renovada.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Metamorfose de botas

No calçadão eu a encontro de esbarrão, veja só, eu que sou quase de não esbarrar em conhecidos ali. Mas eu a conheço bem, tanto é que não conseguiria, se não a conhecesse. Ela está mudada, trocou seus óculos de aro preto moderninhos por uns mais leves. Se não me engano também está estreando nos brincos - não era ela que dizia serem "essas coisas, brincos, maquiagem, simples badulaques", "uma opressão para as mulheres"? E ainda também, se não me engano, ela parece que fez escova nos cabelos, quando sempre a encontro, estão desalinhados, ou com arcos coloridos (já falei que os arcos a deixam com jeito de colegial, e ela não gostou, claro).

Diz que está contente em me ver - veja só, a senhorita-eficiência-depois-a-gente-se-fala-sabe-lá-Deus-quando, pois ela sempre atrasada para os dois trabalhos e sempre tinha uma coisinha para fazer, um curso, ou tinha que ir na casa da prima ver aqueles filmes esquisitos(eu fui uma vez com ela, uma não, duas, pra quê?) sem pé nem cabeça. Também diz que faz tempo que prometo ir visitá-la, mas nunca vou (se ela pensar um pouquinho, vai lembrar que nunca me convidou, por isso nunca fui à sua casa, apesar de morar a alguns quarteirões dela). E, para minha surpresa geral, ela não está carregando o último livro ''imperdível'' que uma das amigas esquisitas dela sempre recomendavam como ''imperdível'', acompanhada, é claro de um calhamaço de papéis de concursos e de textos baixados da internet ("É imprescindível que se leia baseado em bons autores, sabe?"). Impressionante.

No lugar - até que ela fica bem charmosa de botas de cano alto, humm - ela carrega algumas sacolas. Eu olho, ela diz que é para os sobrinhos, os mesmos daquela irmã que era "alienada que só quer fazer o repertório da opressão feminina". "Repertório da opressão" parece nome de banda de rock sub-alternativo. Bem, pelo jeito, mudou, é ex-alienada, pois até o marido é agora elogiado: ''Minha irmã teve sorte de encontrar um cara legal como ele, sabe"? E de primeira mão sei que ela adora os garotos (nunca duvidei disso) e fica imaginando quando tiver os seus. Passa a mão no cabelo "Tá bonito, gostou? fiz escova hoje de manhã!" e repete que fica imaginando quando tiver os seus (garotos). Termina de dizer e morde a ponta do indicador e encolhe os ombros  e sorri, como se fosse arrebatada por um pensamento sublime, o que na verdade é, seu olhar mostra isso (se estivesse com os óculos de aro grosso, talvez ficasse mais difícil de mostrar).

Faceira, põe a mão no meu peito, veja só, eu que sempre sonhei isso e nunca consegui, diz que sempre suas amigas perguntam de mim, e sempre acham que estamos juntos. Eu que pensei que aquelas amigas água de salsicha só diziam coisas ''urgentes'' e escapavam de bobagens de mulherzinhas. E diz também que a prima (a dona da casa onde íamos ver os filmes) sempre pergunta de mim, ela é bonitinha, mas...''O quê?'' Me espanto quando a ouço dizer que ela (a prima) sempre pergunta se estou bem quando se reúnem para ver... comédias românticas. "É, você não sabe que somos mulheres? ha, ha!".

Faz como que está tirando pêlos invisíveis de meu casaco, diz que quer sair comigo, mas acho que eu vou estar ''ocupado demais'' (quem é que está sempre ocupada, caramba!). Olho de lado, a ex-senhorita '' a mulher não deve jamais se submeter aos caprichos de um homem'' esfrega sua mão esquerda no meu braço direito e olha direto nos meus olhos. Finjo que tenho alguns compromissos e busco uma vaga na minha agenda fictícia. "Mas, então eu passo na sua casa, antes". "Sim! Sim!", a senhorita adorável sente que já me laçou e me despeço dela, ela segura o meu braço e parece que vai me levar junto, diz que tem alguns compromissos (não para ela, para a irmã) e sai. O céu cinza, o dia frio e eu tão pasmado. E não é que ela fica mesmo lindona de botas de cano alto?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Notinhas desimportantes

Não quero sua pele junto à minha somente. Espero mais do que apenas seus dedos no meu rosto me arranhando, o navegar entre os seus seios, sua respiração farta, busco mais do que a exasperação conjunta. Quero você completa, imperfeita, com seu olhar a me medir confusa, a sua incapacidade de expressar os pensamentos mais simples...Gosto de você com seu quase pudor, o olhar enviesado sugerindo outra viagem aos nossos segredos mais abissais, logo após dizer que nossa relação não tem mais razão de ser. Preciso (não sou insensível, juro) de seu choro me acusando de tudo o que aconteceu de errado nos últimos cinco minutos em sua vida. Vem, confusa mesmo, vamos decifrar nossas vidas, desafiar as possibilidades, retomar nosso roteiro incansável. Não meu anjo, seu cabelo está lindo e você não está fora do peso, verdade.

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Amar...Meu álibi é te amar cada minuto intenso de forma que ninguém acreditaria...A mim basta apenas cumprir o juramento feito de te servir com os mais preciosos gestos, te adorar com uma grandeza que se supõe a alguém formidável, te satisfazer em seus pequenos, ínfimos prazeres. Que culpa existe em ser o meu amor íntegro, justo, incorruptível? Eu quero em todas as formas defender meu direito de te desejar, de sentir sua vida junto à minha.

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Ah, como é bom estar em seus sonhos, dividir as íntimas vontades sem ter culpa. Correr no seu mundo secreto, vencer todos os perigos. Aqui eu aconteço seus desejos na história que te faz feliz. Vivo, sem receio, tudo que o orgulho real censura...vem comigo, vamos ao mundo atemporal de utopias reais, respirar a cor das nuvens, bronzear no luar nossos corpos, no distinto silêncio de felicidade...

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E eu que pensei que a tua indiferença convicta fosse uma pena a mim concedida, um capricho de mulher ousada em ironias de risos e desprezo. Sofri à toa?

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Quanta memória nos separa...Eu que rejeito o medo do inconvencional, me resgato noite e dia em sua lembrança nova...Pareço um louco buscando o inédito que já sei...mas o amar não é a surpresa das coisas que sempre soubemos e fingimos dominar? Me deixa sonhar te querendo, ansiar pelo teu olhar, unir expectativas, me enganar que sou dono de ti...Me deixa viver de sua estima que me ilude e constrói a utopia do seu amor. Quanto tempo eu anseio a volta dessa sensação, o pulsar dos olhares entrecruzados, o êxtase, todas as lembranças secretas, as únicas que nos restam quando somos esquecidos por quem amamos...

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Se o cristalino silêncio sussurra ao seu ouvido a minha ausência, rejeita...O meu nada apaga o gelo e descobre a trilha que me leva a teu ser...espera. 

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Você diz que sabe me amar como nenhuma outra. O que direi? Evitarei comparar seu jogo de palavras e sua capacidade singular de mudar minhas decisões mais convictas com a de nenhuma outra. Não farei referências à sua chantagem recorrente quando nossos laços parecem se afrouxar e você diz "Nenhuma outra te fará feliz como eu". Não farei comparações entre as sensações vividas passadas com as que você me proporciona de modo tão sublime nem as elogiarei...isso porque você sabe que sabe como ninguém cuidar para que tudo saia do jeito que me apraz. Resignado me entrego a ti e soterro meu orgulho, o que te faz feliz, dona de mim, que repousa seu rosto no meu peito sorrindo mais uma de suas conquistas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Uma pequena tormenta

Para que ficar arrumando seus cabelos desgrenhados? Aí vem a tempestade que não pode ser detida - e você terá que vivenciá-la com todas as suas formas, ventos e falta de cores. Veja, já está cinza, venha, entre comigo e feche a porta. A janela, feche também. Aqui estaremos mais tranquilos, enquanto venta lá fora e a chuva molha o chão - não, essa é uma tormenta das fortes, o cheiro de terra molhada não existe, o vento não deixa, não lamente por isso.

Se assopram lá fora os ventos, aqui continuamos secos, o seu cabelo molhou só um pouquinho. Está piscando a luz, parece que teremos blecaute. Feito. Não está tão escuro assim, logo ela volta, talvez em duas horas. Eu sei que você me abraça não por causa da tormenta lá fora, ela está mais dentro do que fora...ela está em você, não é? Mas não se aflija, assim como a tormenta de chuva, a sua, a nossa irá cessar também.

Eu lembro sim, que quando criança você tinha medo das tempestades e dos relâmpagos...e que se escondia sob o edredom, pensando estar protegida. Então nós crescemos e não mais nos escondemos da tempestade lá fora, mas daquela que sempre surge dentro de nós...aquela que não pode ser medida, antecipada pela previsão do tempo da TV, aquela imprevista que ninguém nota e que deixa nossa alma revolta muito mais do que os cabelos na chuva de agora. Sei que você fica frustrada porque ninguém nota sua tormenta interior, mas eu noto, eu estou aqui aguardando que ela passe para que você, junto a mim, possa sair e contemplar a renovação que te espera.

Veja, voltou a luz e o vento cessou. Abra a janela e a porta também. Foi uma chuva passageira, não foi? Não, parece que não há arco-íris no céu, em compensação a garotada já está correndo lá fora. Lembra de quando fazíamos isso, que felicidade era sair quando a chuva cessava? Eram as tardes mais felizes de nossas vidas. Vamos sair. Sim, claro que espero você arrumar seus cabelos. Eu não acho que está muito emaranhado não, mas se você acha...Você sabe que sou sincero e por isso digo que ele está bem alinhado. Já nem se nota nem um pouquinho que você estava aflita há alguns instantes atrás. Assim, vamos continuar o que íamos fazer antes da chuva. Ah, sim, eu não te contei, não é? Tenho uns bilhetes para o cinema. Eu sei que você gosta, por isso escolhi especialmente para ti. Me enganei, olha o arco-íris logo ali. É, é bonito sim. Vamos logo, senão perdemos a sessão da seis.