segunda-feira, 19 de julho de 2010

Visão além do muro

Durante certo tempo na Santa Casa de São Paulo no ano de 1970, quatro homens dividiam um recinto daquele hospital. Dentre os quatro se destacava um que ficava o tempo todo narrando para os colegas as coisas que aconteciam no Largo do Arouche - isso porque seu leito estava ao lado da janela, a única do recinto. Ele contava tudo o que via: o movimento na floricultura com rapazes que iam comprar flores para suas namoradas, filhos que compravam flores para as mães, pessoas que queriam satisfazer com flores as pessoas queridas; contava sobre o movimento no 'Cine Arouche', como as pessoas estavam vestidas para assistir às sessões, descrevia os cartazes com os filmes exibidos, seus atores e atrizes. Narrava como estava o tempo, se ameaçava chover ou não. Como era época de Natal, descrevia as decorações da festa natalina nas lojas, os enfeites nos terraços dos prédios, crianças carregando pacotes, enfim a atmosfera de encanto que reinava ali.

Isso incomodava os outros pacientes do recinto. Alguns o xingavam de inoportuno, inconveniente, pois somente queria para si a janela com sua paisagem agradável, enquanto os outros viam apenas paredes brancas, equipamentos, agulhas, enfim um cenário nada apetecível...

Entretanto o homem não se importava com as reclamações e continuava com suas narrativas de tudo o que acontecia do lado de lá do hospital com uma riqueza de detalhes impressionante, o que irritava ainda mais os três colegas de leito.

Na noite de Natal daquele ano de 1970 o homem das descrições impressionantes e inconveniente, não resistiu e faleceu. Houve, logo após a retirada de seu corpo, o início de disputa entre os três pacientes restantes para saber qual deles iria ficar ao lado da janela e apreciar a paisagem tão bem descrita pelo homem que havia morrido há pouco.

No dia de Natal, um deles foi escolhido para ficar na janela. Mal amanheceu o dia e o homem pediu para que abrissem a janela para que pudesse apreciar o largo do Arouche e toda a paisagem rica em detalhes que havia imaginado nas narrativas do homem inconveniente. Mas então, ao abrir da janela, o homem não conseguiu ver nada a não ser um muro que impossibilitava a visão para fora do hospital. Ele intrigado perguntou ao médico responsável o que estava acontecendo:

'Este muro está aí há anos', respondeu o médico.
'Mas como então aquele paciente que morreu ontem ficava narrando o que via no Largo do Arouche?'
'Narrando o que via? Impossível isso acontecer'
'Por que?' perguntou o paciente escolhido para ficar na janela.
'Porque ele era cego', respondeu o médico, saindo do recinto.

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